De Engraxate a Garçom: Jornada de 43 Anos em Campo Grande

João Salvador de Souza, 61, narra sua jornada de 43 anos como garçom na Casa do Peixe, em Campo Grande, após trocar a profissão de engraxate. Ele destaca a necessidade, o bom humor e o preparo emocional como chaves para a longevidade na carreira, além de compartilhar encontros com celebridades.

De Engraxate a Garçom: Jornada de 43 Anos em Campo Grande

Aos 61 anos, João Salvador de Souza é um exemplo de dedicação e resiliência. Há 43 anos, ele trocou a caixa de engraxate pela bandeja de garçom, construindo uma sólida carreira no restaurante Casa do Peixe, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Sua trajetória, iniciada em 1980, reflete a mudança de um ofício para outro, moldando uma história de vida e profissional que se confunde com a própria memória do estabelecimento.

João iniciou sua jornada profissional como engraxate na Rua 14 de Julho, próximo a um colégio local. Naquela época, a família que hoje administra a Casa do Peixe também mantinha um hotel na região. Foi nesse ambiente que João começou a atender os hóspedes, engraxando seus sapatos. O convite para trabalhar como garçom marcou um ponto de virada decisivo em sua vida. "Larguei a caixa de engraxate. Isso foi em 1980, estou com eles até hoje", relembra.

## A Necessidade Como Motor

Mais do que um funcionário, João se tornou um pilar da Casa do Peixe, testemunhando o passar de gerações de clientes e a evolução de costumes. Para ele, a longevidade na profissão se resume a um conceito que ele chama de "Neci": a necessidade. "Eu já vi quase tudo aqui. É aquilo que sempre falo, sempre precisei mais de serviço do que o serviço de mim. O que vem e não é legal tem que tocar no peito, tacar pra frente e esperar passar. Tudo passa, até as coisas ruins", explica.

Lidar com o público, segundo João, exige um preparo emocional robusto. Clientes difíceis, pedidos inesperados e dias tensos fazem parte da rotina. "Cliente mal-educado chega até hoje. A gente atende gente de todo jeito, mas tira de letra", afirma. Ele ressalta que quem veste a "farda" de garçom precisa ter um "psicológico forte" para não se envolver em conflitos e garantir a permanência na carreira.

## Bom Humor e Experiência

João não romantiza a profissão, reconhecendo os dias árduos. No entanto, ele prefere transformar os momentos negativos em aprendizado. "Não tem coisa ruim. O que não é bom, a gente tira de experiência", resume. O restaurante, para ele, vai além de servir comida; é um espaço de encontros, memórias e afeto, onde clientes se tornam amigos e até frequentam sua casa.

O bom humor é uma ferramenta essencial em seu trabalho. João descreve a si mesmo de forma autodepreciativa, mas enfatiza que a simpatia e a precisão são cruciais. "Se for um cabra igual eu, esteticamente falando, se for mal-humorado e azedo, tá morto. Ser feio e desajeitado é bravo, aí ninguém quer ficar perto. O segredo é a simpatia e a precisão", diz, evidenciando sua habilidade em lidar com as peculiaridades da profissão.

## Memórias e Celebridades

João também compartilhou memórias sobre a época em que era engraxate, lembrando que a profissão por vezes era associada a atividades ilícitas. "Tem gente que fala que todo engraxate na época era trombadinha, os guri que batiam carteira. Eles usavam a caixa para fazer arte deles, e quem precisava se lascava. Era fama daquele tempo", recorda.

Ao longo de suas quatro décadas no Casa do Peixe, João teve a oportunidade de atender diversas personalidades. Entre os nomes que passaram pelo restaurante e foram registrados em fotos na parede, estão artistas como Ivete Sangalo, Júlio Iglesias, a dupla Rick e Renner, Gian e Giovani, além de integrantes do elenco da primeira versão da novela Pantanal.