A Copa do Mundo e a Memória Afetiva: O Espaço que Sumiu da Casa Brasileira

Jornalista narra a história da "copa" em sua vida, de espaço funcional a coração da casa, e sua eventual substituição pela cozinha americana, lamentando a perda de um refúgio familiar.

A Copa do Mundo e a Memória Afetiva: O Espaço que Sumiu da Casa Brasileira

A primeira lembrança de uma "copa" remonta a 1966, em Viçosa. Longe de ser um espaço para grandes celebrações, era o cômodo funcional da casa, servindo como ponto de refeições rápidas e informais, como o café da manhã e o almoço do dia a dia. Na residência da avó, com suas características rústicas, a copa era suficiente, dispensando a necessidade de uma sala de jantar formal.

A copa de 1970, em Unaí, representou um upgrade significativo. Tornou-se o verdadeiro coração da casa, conectando a cozinha, o banheiro, os quartos e a sala de visitas. Era por ali que se acessava a residência, e a grande porta de vidro era reservada para momentos especiais. Um desses momentos marcantes foi a exibição do pouso da Apollo 11 na Lua e da final da Copa do Mundo entre Brasil e Itália, que atraiu vizinhos para assistir na frente da casa. Era também o local onde os deveres escolares eram feitos e as roupas eram costuradas.

## O Conceito de "Copa" e o "Rancho"

Paralelamente, o texto introduz o conceito de "rancho", descrito como um "resumo da casa fora da casa". Este espaço multifuncional combinava cozinha, varanda, galpão e área de serviço, sendo apreciado por sua amplitude, frescor e adequação ao clima do sertão.

A copa de 1974, em Andrelândia, foi mais modesta, funcionando no hall da escada e utilizando tamboretes em vez de cadeiras. Em contraste, a sala de jantar, no andar superior, abrigava os itens mais formais, como a toalha de linho e a louça especial.

## A Evolução e o Declínio do Espaço

Em 1978 e 1982, a copa desapareceu. Na quitinete da Ilha do Governador e no apertado apartamento de Botafogo, no Rio de Janeiro, o espaço simplesmente não existia. A observação é que, no Rio, a copa era mais comum em apartamentos antigos e casas de subúrbio. Em 1986, em Esmeraldas, a copa ressurgiu, agora com piso de cerâmica, mesa de madeira maciça, quadro da Santa Ceia e cristaleira, voltando a ser o local de conversas tranquilas e delícias locais como pão de queijo.

Nas cozinhas dos apartamentos de Curitiba, em 1994 e 1998, a copa foi recriada, mantendo a dualidade entre o formal e o íntimo. No entanto, a partir de 2002, no Rio de Janeiro, a copa deu lugar à cozinha americana. Esse novo layout, com um balcão separando a área de preparo da sala e uma varanda gourmet, marcou o fim da copa como um espaço distinto.

O autor conclui lamentando a perda desse espaço afetivo. A "copa" se tornou um arcaísmo na memória, substituída por ambientes mais integrados, mas que, na visão dele, carecem de alma e privacidade. A lembrança da copa, em contraste com a realidade atual, ainda provoca saudade.