Boi de Reis: Tradição Resistente Ganha Força em Natal
Grupos de Boi de Reis em Natal celebram a tradição cultural com inclusão de idosos e enfrentam desafios de visibilidade e recursos para manter a manifestação viva.

A celebração do Dia Nacional do Bumba Meu Boi, em 30 de junho, ressalta a importância de manifestações culturais que, no Rio Grande do Norte, se manifestam de forma singular como Boi de Reis ou Boi Calemba. Em Natal, a tradição encontra um lar vibrante na Associação Avança Bom Pastor, na Zona Oeste, onde o grupo Boi de Reis do Bom Pastor, coordenado pelo mestre Cassiano Pontes, de 56 anos, exemplifica a resiliência cultural.
Este grupo, com cerca de 25 integrantes, desafia as convenções históricas de forma notável. Enquanto tradicionalmente os grupos eram compostos majoritariamente por homens, o Boi de Reis do Bom Pastor abraça a inclusão, com a participação ativa de mulheres idosas, que trazem uma nova dinâmica e empoderamento à manifestação. Cassiano Pontes, originário de Pedro Velho, berço do Boi de Reis Pintadinho de Cuité – o mais antigo do estado, fundado em 1908 –, carrega a paixão pela tradição para a capital. O espaço cultural do grupo, instalado em uma escola estadual revitalizada com leis de incentivo, abriga também uma banda de forró, horta comunitária e outras atividades.
## O Encanto e os Desafios da Resistência
A proposta do mestre Cassiano vai além da preservação. "A gente mantém a tradição e leva ao pé da letra com as músicas e os figurinos", afirma, destacando a adaptação para atrair o público jovem. A presença do boi, bode, gigante, ema e cavalo marinho nas apresentações escolares encanta as crianças, promovendo entretenimento e aprendizado. "Hoje a gente tem uma aceitação muito boa com as crianças porque tem o boi, o bode, o gigante, a ema, o cavalo marinho… Com apresentações nas escolas, as crianças se entretêm muito", explica.
Contudo, a sustentação dessa rica cultura enfrenta obstáculos diários. A falta de espaços para apresentações e a escassez de projetos culturais que garantam visibilidade e oportunidades de "venda" do produto cultural são lamentos constantes de Cassiano. Ele recorda tempos em que os grupos eram integrados a eventos como Carnaval e festas de fim de ano, algo que se tornou mais raro. A união entre os mestres de todo o estado é vista como um caminho para a resistência, com encontros periódicos que reafirmam a existência e a força desses grupos.
## Inclusão e Transformação Social
A força do Boi de Reis transcende a performance artística, atuando como um agente de transformação social e inclusão. Dona Francisca, de 81 anos, que dá vida à burrinha Damiana, relata os benefícios físicos e emocionais da participação: "Boi de Reis é muito bom. Já estou me acostumando e quando não faço [as apresentações e ensaios], meu corpo dói". Maria Conceição, 76 anos, encontra no grupo um refúgio e uma nova razão para viver desde 2013, após superar o luto. "Quando elas ‘se foram’, fui fazer exercício numa praça e vi o grupo. Dancei e até hoje estou aqui. Minha família toda apoia, dizem que é muito bom para mim. Quando venho para cá, é outra coisa", celebra.
Em Natal, além do Boi de Reis do Bom Pastor, outros dois grupos mantêm a tradição viva: o Boi de Reis do Mestre Manoel Marinheiro, no bairro de Felipe Camarão, e o Boi de Reis Pintadinho da Vila de Ponta Negra. Essas manifestações, que atingem seu auge nos ciclos junino e natalino, demonstram a vitalidade e a capacidade de adaptação de uma cultura que se recusa a desaparecer, entrelaçando ludicidade, devoção e um profundo senso de comunidade.