Borghi imagina Dalva de Oliveira cantando Brecht

Peça 'Minha Estrela Dalva' em SP recria encontro fictício entre Renato Borghi, sua juventude e Dalva de Oliveira, imaginando a cantora interpretando Brecht.

Borghi imagina Dalva de Oliveira cantando Brecht

O espetáculo teatral 'Minha Estrela Dalva', em cartaz em São Paulo, propõe uma ousada fusão artística: Renato Borghi, aos 89 anos, divide o palco com sua própria juventude, personificada por Elcio Nogueira Seixas. A peça se distancia de uma biografia convencional para criar um "delírio documentado", onde Borghi imagina um encontro no camarim de Dalva de Oliveira em 1954. O objetivo é propor à cantora da Era do Rádio, conhecida por suas canções de "dor de cotovelo", que interprete Bertolt Brecht, transformando o sofrimento pessoal em análise de classe.

Soraya Ravenle, aos 63 anos, dá vida a essa Dalva reimaginada. A atriz, que integrou o coro da primeira montagem de Borghi sobre o tema há quatro décadas, agora assume o protagonismo. A direção, a cargo de Elcio Nogueira Seixas e Elias Andreato, busca explorar o potencial político de um repertório inesperado para a época, em uma encenação que valoriza a força da presença viva no teatro, como demonstrado por Ravenle ao repreender uma espectadora que filmava a peça.

O texto de Borghi, com cenografia de Márcia Moon, utiliza escadarias móveis para simbolizar a ascensão e o abandono na carreira artística. Ivan Vellame interpreta figuras masculinas que exerceram influência sobre Dalva, utilizando falas reais para expor o machismo estrutural da época. A peça culmina na ideia de que Dalva, em sua essência, nunca pertenceu a ninguém.