Fotógrafo do RJ Leva Cultura da Periferia para a Espanha

Carlos Júnior, fotógrafo da periferia do Rio, expõe na Espanha um projeto sobre religiões afro-brasileiras e lança documentário sobre clubes de futebol cariocas.

Fotógrafo do RJ Leva Cultura da Periferia para a Espanha

Nascido e criado na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, o fotojornalista Carlos Alberto da Silva Júnior, de 58 anos, transformou sua vivência na periferia em matéria-prima para uma carreira de reconhecimento internacional. Morador da Taquara, em Jacarepaguá, Silva sempre enxergou sua região como um espaço rico em contrastes, que vai além dos cartões-postais famosos da cidade. Ele se dedica a registrar o que resiste, o que permanece e o que continua produzindo memória, mesmo fora dos grandes centros de atenção.

## Da Mecânica à Arte: Uma Nova Trajetória

A fotografia surgiu em sua vida em 1994, aos 26 anos, quando Silva, então técnico em mecânica de precisão, decidiu abandonar a rotina previsível em busca de um sonho. Inspirado por fotógrafos que via pelas ruas do Rio, ele comunicou à mãe sua decisão de migrar para a fotografia, mesmo com a incerteza inicial. "Eu via os fotógrafos do jornal trabalhando e pensava, 'É isso que eu quero'. Um dia falei para a minha mãe que ia abandonar o trabalho e entrar na fotografia. Ela falou que eu estava largando uma área certa para entrar em uma coisa sem saber se ia dar certo. E eu falei, 'É isso que eu quero'", relata.

A transição profissional envolveu estudo intenso. Silva adquiriu uma câmera usada, aprimorou seus conhecimentos no Senac e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e buscou experiências em redações, revistas e agências, incluindo uma passagem pela revista Manchete. Ele também vivenciou a mudança da fotografia analógica para a digital, adaptando-se às novas tecnologias: "Eu peguei a era do negativo, revelava filme, montei laboratório em preto e branco. Depois veio o digital e tivemos que aprender tudo de novo. Quem não procura novos espaços acaba ficando para trás".

## Reconhecimento Internacional e Projetos Profundos

Atualmente, Carlos Júnior, como assina seus trabalhos, alcança um novo patamar de reconhecimento. Ele foi um dos cinco brasileiros selecionados entre mais de 70 propostas para uma residência artística na Universidade de Salamanca, na Espanha. Em novembro, apresentará a exposição “Orixá: um sopro de vida”, reunindo cerca de 30 imagens que sintetizam um trabalho iniciado há 25 anos.

O projeto "Orixá" começou no início dos anos 2000, quando Silva registrava cerimônias religiosas. Com o tempo, o material se transformou em uma pesquisa documental sobre terreiros de candomblé em diferentes regiões do estado, abordando rituais, espiritualidade e espaços de preservação cultural. A iniciativa nasceu da fotografia, mas evoluiu para uma reflexão sobre memória e intolerância religiosa. "Eu quis mostrar outro olhar, mostrar a cultura, o legado histórico e a beleza que existem ali", explica o fotógrafo. A escolha pelo preto e branco, segundo ele, foi estética e narrativa, focando gestos, expressões e símbolos.

Paralelamente, outro projeto ocupa sua agenda: o documentário "Seis escudos", codirigido com o jornalista britânico Robbie Blakeley. Previsto para estrear em setembro, o filme narra a trajetória de seis clubes tradicionais do Rio de Janeiro que resistem fora dos holofotes do futebol, como Bangu, América, Campo Grande, Madureira, Olaria e São Cristóvão. O projeto aborda a temática da permanência, um fio condutor na obra de Silva.