Guerra no Irã impulsiona produção farmacêutica nacional

Conflitos globais e encarecimento de fretes expõem dependência brasileira de IFAs. Governo e setor privado investem para reduzir importações e fortalecer produção nacional.

Guerra no Irã impulsiona produção farmacêutica nacional

A escalada do conflito no Irã, iniciada em fevereiro, reverberou no cenário global, forçando empresas farmacêuticas brasileiras a recalcular rotas logísticas e, mais significativamente, a acelerar a busca por autonomia na produção de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). A dependência de matérias-primas vindas da China e da Índia expôs a vulnerabilidade da cadeia produtiva nacional, especialmente diante do encarecimento dos fretes e da necessidade de desviar de áreas de conflito.

Atualmente, cerca de 90% dos IFAs consumidos no Brasil são importados, gerando um déficit na balança comercial de insumos farmacêuticos superior a R$ 20 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Apenas com IFAs, o prejuízo em 2025 atingiu R$ 2,7 bilhões, conforme dados da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

## Nova Indústria Brasil e Investimentos Estratégicos

Em resposta a essa fragilidade, o governo federal tem direcionado esforços para fortalecer o Complexo Econômico Industrial da Saúde (CEIS). Dentro da política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), lançada em 2024, estão previstos investimentos de R$ 65,88 bilhões até 2029, dos quais R$ 26,4 bilhões são recursos públicos até 2026 e R$ 39,5 bilhões em capital privado. O objetivo é adensar a cadeia produtiva farmacêutica, reduzir a dependência externa e mitigar impactos no Sistema Único de Saúde (SUS).

Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, ressalta que a superação dessa dependência exige um desenvolvimento endógeno de pesquisa e inovação. A participação brasileira em pesquisas clínicas globais tem crescido, passando de 1,8% para 2,2% entre 2024 e 2025, segundo a IQVIA, indicando um movimento promissor para a geração de novos medicamentos.

## Exemplos Concretos de Autossuficiência

A busca por autonomia já gera frutos. Em março deste ano, a Brainfarma Indústria Química e Farmacêutica inaugurou uma unidade em Anápolis (GO) para produzir o Buscopan com IFA próprio, a escopolamina, derivada da planta duboisia cultivada no Paraná. O Instituto Butantan também avança na produção completa da vacina dTpa e da vacina contra o HPV, incluindo seus IFAs. Com um aporte de R$ 1,4 bilhão do governo federal e investimentos estaduais, o Butantan constrói novas fábricas e amplia estruturas para suprir a demanda por vacinas, como a da dengue, e investir em terapias contra o câncer.

Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, expressa otimismo, comparando o potencial de transformação do setor biotecnológico brasileiro com a revolução ocorrida no agronegócio. Ele acredita que, com prioridade contínua, o país pode vivenciar um "boom" na área, semelhante à expansão da produção de grãos, que saltou de 100 milhões para mais de 350 milhões de toneladas anuais.

No entanto, a instabilidade política e o ano eleitoral geram insegurança sobre a continuidade das políticas de Estado. Executivos temem que as iniciativas atuais se tornem meras políticas de governo, com risco de descontinuidade. A consolidação da autossuficiência na produção de IFAs é um desafio de longo prazo que demanda consistência e investimento contínuo.