Tilápia no Brasil: Cientistas alertam sobre risco de invasão

Nota técnica com 33 pesquisadores defende que a tilápia-do-Nilo atende a critérios de espécie exótica invasora, reacendendo debate sobre seus impactos ecológicos no Brasil.

Tilápia no Brasil: Cientistas alertam sobre risco de invasão

Um debate científico sobre os impactos da tilápia em ecossistemas naturais brasileiros foi reacendido por uma nova nota técnica. Assinado por 33 pesquisadores, o documento, publicado em 29 de junho no repositório científico EcoEvoRxiv, reúne evidências da literatura científica para sustentar que a tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus) cumpre os critérios internacionais para ser classificada como espécie exótica invasora. A publicação visa subsidiar as discussões em andamento na Comissão Nacional de Biodiversidade (CONABIO).

O tema ganha relevância ao envolver uma das espécies mais importantes para a aquicultura brasileira. Em 2025, o país registrou a produção de 707.495 toneladas de tilápia, o que representa cerca de 70% de toda a produção nacional de peixes cultivados. Além disso, a espécie foi responsável por aproximadamente 94% das exportações brasileiras de piscicultura, consolidando o Brasil como o quarto maior produtor mundial, conforme o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026.

Paralelamente ao seu papel econômico, a presença da tilápia em rios, lagos e reservatórios naturais tem levantado preocupações na comunidade científica. Pesquisadores têm estudado como espécies introduzidas podem alterar ecossistemas fora de suas áreas de origem. Os autores da nota técnica enfatizam que o objetivo do documento não é questionar a importância econômica da tilápia, mas sim apresentar o conhecimento científico acumulado sobre os riscos ecológicos associados à espécie.

"A publicação foi motivada pela urgência em subsidiar decisões políticas e legislativas com dados científicos sólidos, especialmente diante de propostas que tentam flexibilizar o cultivo de espécies exóticas ou reclassificá-las legalmente para reduzir exigências ambientais", explica Jean R. S. Vitule, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e autor sênior da publicação. Ele ressalta a necessidade de considerar o patrimônio natural brasileiro, que abriga a biodiversidade aquática mais rica do planeta, com milhares de espécies endêmicas que prestam serviços ecossistêmicos de valor inestimável e ainda em estudo.

A introdução oficial da tilápia-do-Nilo no Brasil ocorreu em 1971, pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), com o intuito de popularizar o consumo de pescado em reservatórios públicos do Nordeste. Antes disso, em 1953, a tilápia-rendalli já havia sido introduzida no país. Contudo, foi a tilápia-do-Nilo que se estabeleceu como a principal espécie cultivada.

O sucesso da tilápia na aquicultura se deve a características como rápido crescimento, boa conversão alimentar, adaptabilidade a diferentes condições ambientais e alta capacidade reprodutiva. Essas qualidades facilitaram sua disseminação por todo o território nacional, transformando-a em um pilar da aquicultura. No entanto, são exatamente essas mesmas características que despertam a atenção dos pesquisadores quanto ao seu potencial invasor e aos impactos ambientais decorrentes de sua expansão em ambientes naturais.