Terremoto na Venezuela: Caracas lida com normalidade e vidas arruinadas

Caracas, Venezuela, vive um dilema após terremotos: a normalidade aparente contrasta com milhares de desalojados que buscam abrigo em parques, enquanto a busca por desaparecidos continua.

Terremoto na Venezuela: Caracas lida com normalidade e vidas arruinadas

A capital da Venezuela, Caracas, apresenta um cenário de contrastes após os fortes terremotos que abalaram o país em 24 de julho. À primeira vista, a cidade, situada entre montanhas e com uma história de metrópole moderna, opera em aparente normalidade. O abastecimento de bens essenciais não foi interrompido, o transporte público e o comércio funcionam como de costume, e o acesso à internet foi restabelecido.

No entanto, sob essa fachada de normalidade, as cicatrizes da tragédia são visíveis em diversos pontos da cidade. Milhares de pessoas que perderam suas casas ou tiveram suas moradias parcialmente destruídas pelos tremores encontraram refúgio em parques e espaços públicos. O Parque del Este, um extenso oásis urbano projetado pelo renomado paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, transformou-se em um abrigo improvisado para centenas de famílias, incluindo cerca de 300 crianças e adolescentes.

## Vida em Acampamento Improvisado

No Parque del Este, a placa "camping" dá lugar a uma realidade dura: um acampamento onde os desabrigados recebem doações de comida, roupas e cuidados médicos. Uma clínica móvel oferece atendimentos e exames, atendendo inclusive a necessidades específicas como a reposição de óculos perdidos durante os abalos sísmicos. Contudo, a incerteza sobre o futuro paira no ar. "O que precisamos agora é uma casa", desabafa Kimberlly Paola Torres López, de 19 anos, enquanto cuida de sua filha de 8 meses e de um bebê vizinho. Sua casa em El Junquito desmoronou, e ela, seu bebê e sua mãe conseguiram sair a tempo. Apesar de terem seus dados coletados pelas autoridades, a falta de informações sobre moradia substituta gera angústia.

As famílias desalojadas, muitas delas vindas de áreas como Chacao – especialmente os bairros de classe média alta de Los Palos Grandes e Altamira, que registraram o colapso de três edifícios e a morte de pelo menos 62 pessoas –, chegaram ao parque em busca de segurança. Algumas estão ali há nove dias, outras encontraram o local após ouvir de terceiros sobre a existência do acampamento. As equipes de resgate locais atuam na capital, pois o volume de destruição é menor em comparação com La Guaira, a região costeira mais devastada, onde a cifra de mortos ultrapassa os milhares e os desaparecidos chegam a dezenas de milhares.

## Busca por Entes Queridos e a Preocupação com Crianças

Nas paredes de Caracas, cartazes com fotos de desaparecidos se espalham, exibindo números de contato e cédulas de identidade na esperança de um reencontro. O "Muro da Esperança" no Parque del Este recebe novas fotos diariamente, mas, segundo a responsável pelo local, nenhuma pessoa buscada ali foi encontrada desde o dia seguinte ao terremoto.

A infância é um dos focos de maior preocupação. O governo não divulga o número de crianças desaparecidas ou órfãs. Relatos indicam que, apenas em Caracas, quatro menores estão sob custódia do Estado após perderem seus responsáveis diretos. Estima-se que esse número seja significativamente maior em La Guaira. Orfanatos na capital se preparam para receber essas crianças, mesmo sem ter informações claras sobre a quantidade exata ou suas localizações.