Irã usa funeral de Khamenei para exibir poder e influência regional
Funeral do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, transforma-se em demonstração de poder. Evento em Teerã e cortejo planejado pelo Oriente Médio buscam reforçar influência regional e unidade nacional.

O Irã iniciou neste sábado (4) as cerimônias de funeral para o aiatolá Ali Khamenei, o falecido líder supremo, marcando o começo de um período de luto oficial e celebrações que se estenderão por vários dias. Milhares de apoiadores, ostentando bandeiras vermelhas que simbolizam vingança, reuniram-se no complexo religioso Grand Mosalla, em Teerã, para a chegada do caixão. O evento, inicialmente previsto para o início de março, foi adiado em decorrência da intensificação da guerra no Oriente Médio, desencadeada por ataques atribuídos aos EUA e Israel que resultaram na morte de Khamenei em 28 de fevereiro. Ele liderou o país por quase quatro décadas.
## Legado e plano de sucessão
O corpo de Khamenei permanecerá em câmara ardente até segunda-feira, antes de ser transportado para Qom, um importante centro xiita. Um cortejo fúnebre com potencial passagem pelo Iraque, incluindo as cidades sagradas de Najaf e Karbala, está planejado. Essa movimentação é interpretada como uma estratégia para demonstrar a influência regional iraniana. O sepultamento final ocorrerá na quinta-feira, em Mashhad, cidade natal do aiatolá.
A segurança foi reforçada com o fechamento do espaço aéreo iraniano e de diversas vias nas cidades por onde o cortejo passará. A prefeitura de Teerã antecipou que o evento seria "a maior reunião da história de Teerã", com paralisação de atividades comerciais e suspensão de rotinas. Autoridades buscam "reforçar a coesão nacional e a unidade" entre os diversos segmentos da sociedade, segundo Ali-Akbar Purdjamschidian, chefe do comitê organizador. Os bombardeios de 28 de fevereiro teriam, além de vitimar Khamenei, ceifado a vida de membros de sua família, embora detalhes sobre a recuperação de corpos permaneçam incertos.
## Mobilização e cenário internacional
O regime iraniano trabalhou para mobilizar apoio para as cerimônias, que foram anunciadas após um cessar-fogo temporário entre Teerã e Washington. Líderes internacionais, como o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e representantes da Rússia, China, Afeganistão e Índia, compareceram para prestar homenagens. Familiares de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, também estiveram presentes. A possível aparição de Mojtaba Khamenei, apontado como sucessor do pai, ainda não foi confirmada. O general Ahmad Vahidi, da Guarda Revolucionária, foi visto publicamente pela primeira vez desde 8 de fevereiro, um dos responsáveis pela linha dura iraniana em negociações com os EUA.
## Tensões e descontentamento interno
O longo período de Khamenei no poder foi marcado por crescentes tensões internacionais, corrupção, má gestão econômica e sanções. Diferentemente de seu antecessor, Ruhollah Khomeini, Khamenei exerceu uma gestão microgerenciada por 37 anos. O descontentamento público se manifestou em ondas de protestos, como o Movimento Verde de 2009 e as manifestações "Mulher, Vida, Liberdade" em 2022, todas reprimidas com violência. A abordagem de "não fazer concessões" a opositores, segundo analistas, ampliou o distanciamento entre a sociedade e o sistema político. Apesar de a resistência da República Islâmica em meio a conflitos regionais ter fortalecido apoiadores, os bombardeios e a destruição de infraestrutura intensificaram a insatisfação, especialmente entre os jovens.
A política externa, com a inclusão da "frente do Líbano" nas negociações com os EUA, sugere a continuidade da abordagem de Khamenei, visando manter a influência de grupos aliados na região.