Ministro acusa Flávio Bolsonaro de buscar "salvo-conduto" nos EUA

Ministro brasileiro acusa Flávio Bolsonaro de usar viagem aos EUA para fugir de responsabilidade por tarifas e obter vantagem eleitoral.

Ministro acusa Flávio Bolsonaro de buscar "salvo-conduto" nos EUA

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, criticou veementemente a iminente viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos. Segundo Rosa, a ida de Flávio a Washington, onde participará de uma audiência pública sobre investigações que podem levar à imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros, não passa de uma estratégia eleitoral para se eximir de responsabilidade por um eventual "tarifaço".

Às vésperas do fim do prazo para consultas públicas sobre a investigação, que se baseia na seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, o ministro apontou que Flávio, juntamente com seu irmão Eduardo Bolsonaro, o empresário Paulo Figueiredo e o ex-presidente Jair Bolsonaro, seriam os responsáveis por um possível agravamento das sanções comerciais contra o Brasil. A participação do senador em Washington, na visão de Rosa, seria uma tentativa de obter um "salvo-conduto" para sua pré-candidatura à Presidência.

"Do ponto de vista da negociação, é ineficaz porque ele vai falar sobre o que não sabe e não conhece. Do ponto de vista eleitoral, ele está indo buscar um salvo-conduto para poder concorrer sem o risco de ser acusado pelo tarifaço", declarou Rosa em entrevista à BBC News Brasil. O ministro também expressou ceticismo quanto à sinceridade da mudança de postura do senador em relação às tarifas, argumentando que, se fosse genuína, Flávio já teria se desculpado pelo que, segundo o ministro, o grupo político vem patrocinando contra a economia brasileira.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se empenhado em vincular o clã Bolsonaro ao risco de novas sanções americanas. O Brasil está sob análise em duas investigações distintas na mesma seção da lei comercial dos EUA, que visa apurar práticas consideradas injustas ou prejudiciais a empresas norte-americanas. Uma dessas investigações foi iniciada após um tarifaço de 50% aplicado pelo governo americano a produtos brasileiros.

## Detalhes das Investigações

Entre os pontos levantados pelos EUA estão críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix, alegando que ele prejudicaria empresas americanas de pagamentos eletrônicos. Decisões judiciais brasileiras que impactariam plataformas digitais e a suposta vantagem de produtores brasileiros de carne devido ao desmatamento na Amazônia, afetando a competitividade nos EUA, também foram citados.

O governo brasileiro refuta as acusações e, nesta semana, apresentou aos Estados Unidos uma proposta detalhada, descrita como um "mapa do caminho" para negociações, caso Washington decida não impor novas tarifas. Fontes governamentais indicam que pontos cruciais, como o funcionamento do Pix, permanecem fora das concessões.

## Cenários e Negociações

Márcio Elias Rosa admitiu que um acordo abrangente antes do prazo final é improvável. Contudo, ressaltou que o governo está preparado para todas as eventualidades, incluindo a possibilidade de novas tarifas serem efetivamente aplicadas. "O Brasil trabalha com todas as possibilidades", afirmou Rosa. "Não podemos descartar a hipótese de celebrar um acordo que evite a imposição das tarifas porque a gente acredita muito na nossa tese de que a investigação não tem fundamento em nenhum dos aspectos levantados. Estamos trabalhando, também, com a hipótese de conseguir postergar a decisão final. Mas é óbvio que a gente também trabalha com a ideia de que venham a ser impostas as tarifas."

O ministro negou falhas no processo de negociação por parte do governo brasileiro e atribuiu as dificuldades a um suposto componente político-ideológico por trás das investigações, que teria atrapalhado o avanço das conversas. Caso as tarifas sejam confirmadas, o governo já estuda medidas para mitigar os impactos sobre os exportadores, incluindo o apoio à diversificação de mercados.